Cuba, uma Muralha de Pedras e de Idéias
Fernando Mousinho*
Brasília, 10.03.08
A luta é teu ideal
o que se passou, passou
não te podem deter
teu destino é lutar e vencer
Paulinho da Viola
Pouco a pouco, a Ilha de Cuba vai passando para as mãos de cidadãos norte-americanos, o que é o meio mais simples e seguro de conseguir a anexação aos Estados Unidos
Jornal Louisiana Planter
início do sec. XX
Cuba não pode exportar a Revolução,
mas os Estados Unidos não podem impedi-la
Fidel Castro
Bush e seu aparato midiático ao anunciarem "mudanças" em Cuba após a decisão do comandante Fidel Castro de não concorrer às últimas eleições, reconheceram diante a opinião pública internacional duas verdades que os Estados Unidos sempre esconderam: uma que Fidel é o vencedor de uma guerra travada com a maior potência bélica do planeta durante quase meio século e, a outra, que em Cuba tem eleições.
A eleição de Raul Castro demonstrou que o povo cubano não marchará contra sua própria história. Cuba era o paraíso do jogo, da droga, do contrabando e da prostituição, principalmente da prostituição infanto-juvenil, sob o controle de empresários, mafiosos e políticos norte-americanos. Havia em Cuba, em 1958, mais prostitutas do que operários mineiros. Um país eminentemente agrícola, onde predominava a monocultura da cana-de açúcar. A terra encontrava-se concentrada em poucas mãos, em grandes latifúndios: 114 latifúndios, menos de 0,1% das propriedades, ocupavam 20,1% do território. 8% do total das propriedades ocupava 71,1% enquanto que, por outro lado, 39% das unidades agrícolas constituíam-se de pequenas explorações dos camponeses com menos de meio hectare, ocupando apenas 3,3% da terra.
A economia cubana estava sob o domínio dos grandes monopólios norte-americanos. Controlavam 90% das indústrias elétricas e telefônicas, perto de 50% dos serviços públicos e 40% do açúcar. Importava dos Estados Unidos 60% das gorduras, 69% das carnes, 80% das conservas de frutas e 83% dos doces e caramelos. Até arroz, feijão, alho, cebola, banha, e algodão eram comprados nos Estados Unidos. Vinham sorvetes de Miami, pães de Atlanta e até jantares de luxo de Paris . No entanto, Havana em 1954 tinha mais cadilacs que qualquer cidade do mundo.
A taxa de analfabetismo era de 25% no meio urbano, enquanto na população rural atingia 41,7%. A taxa de desemprego era de 25% -um para quatro. Havia menos crianças nas escolas, proporcionalmente aos anos 50 do que nos anos 20.
54% da população rural não tinha nenhum tipo de instalação sanitária em suas moradias, e doenças como a malária, a tuberculose e a síflis eram endêmicas. As instalações e pessoal médico radicavam fundamentalmente na capital, onde concentrava-se 65% dos médicos e 62% dos leitos existentes. Na zona rural, praticamente não existia atenção médica e contava apenas com um hospital.
O único computador que havia em Cuba servia apenas para monitorar corrida de cachorro.
O triunfo da Revolução realizou de imediato uma campanha de moralização do povo, juntamente com medidas de ordem econômica, política e social. A primeira dessa medidas foi a Lei de reforma Agrária, promulgada em maio de 1959. Nacionalizou as usinas de cana-de açúcar e todas propriedades com mais de 420 hectares, e distribuiu terra para mais de 200 mil famílias. Em 1961 a campanha nacional de alfabetização declara Cuba “território livre do analfabetismo”.
Atualmente o país conta com 15 universidades, que oferecem 82 cursos regulares e 28% de seu corpo docente é constituído por Doutores. A relação do pessoal docente é de 17,1% para cada mil habitante. Um entre cada sete trabalhadores tem nível superior. A cada oito cidadãos, um possui formação técnica secundária e, a cada 15 cidadãos, um possui nível superior. 97,5% das crianças com menos de 14 anos estão nas escolas. Recentemente, com a utilização do método cubano Sim, eu posso, já foram alfabetizados, gratuitamente, três milhões de pessoas, procedentes de mais de 27 países. Em 2007, havia 49,7 mil bolsistas estrangeiros –entre eles muitos norte-americanos pobres e quase mil brasileiros- estudando na Escola Latino-Americana de Medicina, totalmente gratuito.
Assim como a educação, a saúde em Cuba é referência mundial, e gratuita. Mais de 99,1% da população está coberta com um médico e uma enfermeira da família. No geral, há um médico para cada 100 pessoas em Cuba. A mortalidade infantil e a expectativa de vida em Cuba são, respectivamente, 5,4% por mil nascidos vivos e 77 anos. Índices superiores ao de países como Estados Unidos, Japão e Dinamarca, segunda a UNESCO. 98% das residências cubanas tem acesso à água potável, energia elétrica e saneamento básico.
Cuba presta serviços de saúde em 71 países e dois territórios ultramar, com a participação de 37,5 mil colaboradores. É o programa de reabilitação oftalmológica Operação Milagre, pelo qual médicos cubanos fazem operações em centros de oftalmologia cubanos ou de outros países, totalmente gratuito. Nos últimos anos, esse programa já recuperou a visão de mais de 650 mil latino-americanos e caribenhos.
Entre os anos 1990/92, em pleno Período Especial, quando da desintegração da URSS e a queda do Campo Socialista do Leste Europeu, países com os quais Cuba mantinha 85% de seu comércio exterior, 9.107 crianças e jovens da Bielorrusia, Ucrânia e Rússia, com idades de 2 a 18 anos, e 1.270 adultos, um total de 10.377 pacientes, afetados pela radioatividade da usina nuclear de Chernobil, receberam tratamento de leucemia, intervenções cirúgicas cardiovasculares, transplantes de medula óssea, enxerto de rins; além de assistênca odontológica e psicológica). Todos, sem exceção, atendidos gratuitamente, igual às crianças brasileiras que lá estiveram, afetadas pelo Césio 137 de Goiânia.
As “mães de Chernobil”, em carta à Organização Mundial de Saúde, à Organização Panamericana de Saúde e à opinião pública internacional, disseram: Cumprimos com o sagrado dever de agradecer e reconhecer, às crianças cubanas, seus pioneiros, ao Ministério e trabalhadores da saúde, ao pensador e arquiteto da saúde mundial, o presidente Fidel Castro e ao seu povo, por serem capazes de transformar os sonhos em realidade, o sofrimento e o egoísmo humano em fraternal serviço, para enfrentar, junto a outros povos do mundo, a crua realidade das catástrofes, a que a humanidade periodicamente está submetida.
O Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba, um dos mais avançados da América Latina, produz, entre outros produtos, uma vacina contra hepatite B, comercializada em mais de 30 países. Também fabrica um interferon recambiante, que reforça o sistema imunológico do paciente com câncer, e a meningite tipo B. Ainda estão no pipeline do Centro uma injeção que cicatriza úlceras e melhora a circulação em diabéticos e vacinas contra cólera e hepatite tipo C.
"No percurso do aeroporto de Havana ao centro da cidade há um autdoor com o retrato de uma criança sorrindo e a frase: Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana." Registrou Frei Beto.
Na área do desporto e da cultura a Revolução Cubana também atingiu patamares internacionais. Cuba se destaca hoje entre as dez maiores potências olímpicas do desporto mundial. O Balé Nacional de Cuba, dirigido por Alícia Alonso, uma das maiores bailarinas da história do balé clássico mundial, desponta entre os primeiros do mundo. Cuba é, hoje, o país com o maior número de médicos e bailarinos de balé clássico por habitante do mundo. A instituição cubana Casa das Américas é ímpar no patrocínio e divulgação do trabalho de escritores, músicos e estudiosos de literatura da América Latina e do Caribe. Este ano, o prêmio literário Casa, entra na sua 48º edição.
A Escola de Cinema e Televisão de Cuba, que projeta uma visão diferenciada do Terceiro mundo e seu cidadão, é considerada a mais significativa instituição voltada para a formação de profissionais do cinema. Estudantes de mais de 48 países participam de seus cursos de especialização. O prestígio da EICTV atravessa barreiras geográficas e políticas, tem contado com um corpo de direção e de professores de grandes nomes do cinema tais como: Francis Ford Coppola, Rui Guerra, que já foi, inclusive, seu presidente, George Lucas, Costa-Gavras, Jean Claude Carriére, Robert Redford e Spielberg. E tem como presidente de honra, Gabriel Garcia Márquez, um dos seus fundadores, juntamente com o brasileiro, o documentarista Sérgio Muniz.
A inserção dos negros nos níveis de ensino demonstra que eles não estão excluídos dos benefícios resultantes das políticas educacionais. Nos níveis primário, médio, médio superior e superior, os negros representam 22,9%; 35,1%; 34,1% e 7,8% respectivamente. Na mesma ordem, os mulatos representam 26,2%; 37,4%; 29.9% e 6,5%. Enquanto os brancos representam 26,6%; 34,1%; 30,2% e 8,7% .
O Hospital Psiquiátrico de Havana tem rica história no atendimento ao doente mental, cuja proposta é ressocializar e valorizar o indivíduo como ser humano utilizando diversas formas de manifestações artísticas: teatro, dança, música, poesia, trabalhos artesanais, etc.
Estudo em seis cidades (Buenos Aires, São Paulo, Santiago, Havana, Cidade do México e Montevidéo), constatou que Montevidéo, Buenos Aires e Havana apresentam as menores desigualdades sociais em saúde do idoso, por seus países possuírem melhores indicadores socioeconomicos .
A Revolução mudou a perspectiva de vida da mulher cubana. Em 1907, só 12 dos médicos, advogados, arquitetos e engenheiros em Cuba eram mulheres. Três em quatro das mulheres que trabalhavam eram empregadas domésticas. Hoje, mais de 50% dos médicos e professores de universidades do país é constituída por mulheres, 60% dos estudantes universitários também. Cuba tem o terceiro maior número de mulheres representantes do corpo político do terceiro mundo. Na Assembléia Nacional do Poder Popular, 219 parlamentares são mulheres, o que representa 35,96% do total.
São conquistas inquestionáveis, apesar da política unilateral e agressiva dos Estados Unidos, expressa na adoção de um bloqueio econômico, comercial, financeiro e, sobretudo, desumano, imposto a Cuba desde 1962. Um bloqueio que já custou US$ 100 bilhões à pobre Ilha. Uma exemplar política de genocídio, que fere a Convenção de Genebra: “Não há norma no direito internacional que justifique o bloqueio em tempo de paz.”
Nesse grande momento de sua história, o povo cubano livre e soberano, culto e politizado, não cairá no canto da sereia. Fiel a José Martí, saberá transformar em realidade seu ensinamento, que previa que trincheira de idéias vale mais que trincheira de pedras. Pensamento este que Fidel, do alto de sua sabedoria e lucidez, sinteticamente atualizou: hoje necessitamos das duas trincheiras. O grande desafio do povo de Cuba, como força motriz da Revolução, e de seus quadros dirigentes, é aprimorar e ampliar os ganhos revolucionários, promover os ajustes e as mudanças por eles consideradas necessárias. Porque em Cuba, passo atrás nem para tomar impulso! É o que se ouve nas ruas do país. Haja visto que, para 2/3 da humanidade a globalização neo-liberal fracassou, e que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha de pobreza.
Desigualdade social em saúde entre os idosos da América Latina. Noronha, Kenya V.M. de Souza; e Andrade, Mônica Viegas. I Congresso da Associação Latino Americana de População-ALP, Caxambú-MG, 18-20 Set/2004
(*) Fernando Mousinho é sociólogo e assessor da Liderança do PSB na Câmara dos Deputados