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Propaganda política: 15 leis e mais uma
Partido Socialista Brasileiro - PSB
Roberto Amaral


Nota prévia


A primeira versão deste texto foi escrita e distribuída com o partido com vistas às eleições de 2000. Relendo-a passados seis anos, suas teses me pareceram atuais, até porque todo o seu desenvolvimento teve como base o ensinamento de autores clássicos. Por isso, com pequena revisão e alguns acréscimos, resolvi devolver este pequeno ensaio à circulação.

Seu provável mérito não está na originalidade dos conceitos, mas na tentativa de sistematizar algumas idéias fundamentais sobre propaganda política, difundidas, há muitos anos, por dois pensadores clássicos, Serge Tchakhotine (autor de Le viol de foules par la propagande politique, traduzido no Brasil, por Miguel Arraes como A mistificação das massas pela propaganda, Rio, 1967) e, J. M. Domenach, autor de La propagande politique (Paris, 1950). Igualmente consultamos a exposição de João Camilo de Oliveira Torres em A propaganda política, natureza e limites (Minas Gerais).

Mas, verá nosso leitor com algum proveito, que trabalhei também as lições – não se assuste!- do Padre Vieira em seu famoso ‘Sermão da Sexagésima’. Quem o ler estará conhecendo um excepcional roteiro de simplicidade oratória. E, não nos esqueçamos essa sua lição data de 1655...
Sem dizer que campanha eleitoral e guerra se confundem, lancei mão de alguns conselhos de Sun Tzu (A arte da guerra, segundo James Clavel). O livro de Sun Tzu teria sido escrito há 2.500 anos!
Em síntese: arrolo algumas lições clássicas de propaganda política voltando-as para objetivos eleitorais, e tento analisá-las segundo nosso tempo, e nossa realidade, pensando em nosso processo eleitoral e em nossos candidatos.

Enunciadasas fontes, conheçamos nossos objetivos, isto é, os objetivos da propaganda política.
Para os fins desses comentários, são considerados como objetivos da propaganda:

a. derrotar o adversário;
b. conquistar os neutros;
c. entusiasmar os militantes e simpatizantes.

Esses objetivos podem ser alcançados mediante:

a. desmoralização do adversário;
b. criação de um clima de vitória; e
c. transformação dos objetivos do candidato em reivindicações populares.

Suponho que esse breve estudo pode ser útil aos nossos candidatos e à militância, nessa campanha.
Sucesso!
Rio, agosto de 2000/abril de 2006
Roberto Amaral



15 leis da propaganda política

Primeira lei: da simplificação e do adversário único


Esta lei diz que a propaganda deve ser monista, expondo, mediante fórmula simples e clara, a idéia a ser divulgada. A boa idéia é aquela que pode ser reduzida a um slogan, a uma consigna, a uma palavra de ordem, a um lema O melhor slogan é aquele que contiver o menor número possível de palavras. O fundamental é cunhar uma idéia e –já estamos antecipando a segunda lei--, repeti-la à exaustão. Quanto mais simples a fórmula, quanto mais condensada a idéia, melhor. Lembremos, entre nós, o sucesso de palavras-de-ordem como ‘O petróleo é nosso’ ou, mais recentemente, ‘Diretas-já’, ensejando uma rápida compreensão de seus conteúdos pelas massas.
O leninismo foi certamente aquele movimento de massas, revolucionário, que melhor soube utilizar-se da força da palavra-de-ordem síntese. Na luta pela tomada do poder os comunistas gritavam: “Todo o poder aos sovietes”. No governo, a consigna “Terra e paz” ligava e exprimia as duas reivindicações do exército russo. Nos anos 5o Juscelino encerrou todo o seu projeto desenvolvimentista nesta frase de extrama siplicidade: “50 anos em cinco”.
O mesmo se aplica aos logotipos ou logomarcas, ou símbolos gráficos de partidos e candidaturas. A regra é a simplicidade do traço, a mais fácil reprodutibilidade e a mais fácil e rápida compreensão de seu significado e da mensagem que deve transmitir. Nada mais simples, significativo e reprodutível do que a cruz dos cristãos -que sobrevive a dois milênios. Compare-se, contemporaneamente, a simplicidade e síntese da estrela petista com a complexidade do tucano da social-democracia conservadora. Compare-se a simplicidade e reprodutibilidade da suástica nazista com a águia dos Estados Unidos.
Esta lei, de acordo com seu enunciado, contém dois princípios. Visto o primeiro (simplificação), examinemos o segundo: o inimigo único.
A propaganda política, particularmente quando tem diante de si o desafio eleitoral, precisa eleger um alvo, um inimigo. Mas um só alvo, um inimigo único. Esse inimigo deve ser simbólico daquilo que combatemos na campanha. A ele são atribuídas todas as mazelas. Contra ele são dirigidas nossas baterias. Mesmo quando vários são os ‘inimigos’, é fundamental eleger um só, aquele que menos simpático for ao cidadão neutro, isto é ao não-militante.
Uma lei decorrente desta: o alvo da propaganda (a saber, o público que desejamos conquistar) não é o militante, mas o cidadão: a) que ainda não se definiu (e que precisamos conquistar) ou b) se definiu contra (cuja opinião, portanto, precisamos mudar). Fazer o discurso dos partidários é molhar o mar, a não ser quando se está em auditório de militantes. Nesse caso o discurso visa a manter alto o entusiasmo dos seus seguidores, o que, aliás, é essencial para a campanha. É a ùnica hipótese em que se justifica ‘convencer os convencidos’.
(Voltaremos a essas estratégias ao comentar a sexta lei)

Segunda: lei da repetição

Sobre ela já nos referimos, rapidamente. É clássica, está em todos os manuais e vem sendo empregada com freqüência, com sucesso, pelos especialistas em publicidade e propaganda. É a espinha dorsal de toda publicidade comercial moderna. Seu fundamento é uma lei da psicologia: é a repetição que faz o hábito. Para que uma idéia se torne corpo e alma de um povo, para que uma idéia se transforme em uma vontade eleitoral, é preciso que seja repetida até à exaustão, indefinidamente. A nova idéia precisa ser transformada em lugar-comum.
Esta lei se aplica, sobretudo mas não apenas, às inserções no horário da propaganda eleitoral. Ela se completa com a

Terceira: lei da variação

Esta terceira lei é uma servidora da segunda, e as duas talvez pudessem ter sido enunciadas como uma só: a idéia, repetida, precisa evitar o abuso, não pode cansar, não pode ficar monótona. Foi uma boa idéia a frase-programa do candidato “Meu nome é Enéas’. Funcionou como artifício engenhoso para a falta de tempo na televisão. Fez sucesso quando usada pela primeira vez. Sua repetição exaustiva nas segundas eleições presidenciais, porém, criou o maior adversário de uma idéia política: a resistência, primeiro passo para a rejeição. A alternativa é a variação dentro da mesma temática cujo melhor exemplo vamos encontrar na composição do Bolero, de Ravel, “que nunca se repete, embora volvendo sempre, incansavelmente, ao mesmo tema”.
Estas observações se aplicam especialmente, no programa eleitoral gratuito, aos chamados ‘blocos’.
Na televisão, no programa eleitoral, se repetirmos todo dia a mesma historieta, ou o mesmo discurso, ipsis litteris, certamente uma e outro ficarão negativos e, na seqüência, deixarão de ser percebidos. Mas se a mesma história, contada de forma diferente, ou o mesmo discurso dito com outras palavras, chegarem sempre ao mesmo fim, à mesma mensagem, construindo, se possível, um refrão, a lei da repetição terá sido respeitada sem que se tenha violado a lei da variação. A união dessas duas leis possibilita que a idéia nova se repita, ou que a repetição não envelheça (ou canse) a idéia nova.

Quarta lei: a simplicidade

O discurso (ou seja: o discurso do candidato, as peças publicitárias, o programa de televisão, isto é, tudo) deve ser o mais simples possível. Esta lição está no nosso Padre Vieira e em seu famoso ‘Sermão da sexagésima’, no qual o grande pregador oferece um verdadeiro roteiro de como organizar um discurso .
Vejamos os elementos do discurso, segundo Vieira:
1. clareza;
2. unidade temática (um discurso a cada tema);
3. o orador deve dominar o tema (ninguém consegue ser brilhante ou convencer falando sobre o que não entende);
4. estrutura coerente: o discurso deve ter começo, meio e fim (o começo enuncia a tese, o meio do discurso os argumentos e o fim as conclusões);
5. o justo peso: o discurso tem umas coisas de mais peso e outras mais leves, como tem umas superficiais e outras de mais fundo. O orador precisa saber governar o tamanho e o peso para que os frutos excessivos não façam tombar o tronco magro;
6. para convencer, o discurso carece de alma; em outras palavras: o orador, para convencer, precisa estar convencido;
7. cada um com a sua língua: o orador fala sobre o que entende, sobre tema que domina, e com a linguagem que entende e que domina;
8. o orador há de ter um mínimo de identificação com o que diz: pode o torturador defender os direitos humanos, o corrupto prometer pôr os ladrões na cadeia?
Acrescento: o bom orador é, acima de tudo, um bom pregador, pois a razão de seu discurso é converter, pela palavra (entenda-se pela palavra e gesto), os seus ouvintes.
Domenach prefere recolher sua lição numa passagem do Minha vida, de Hitler, para muitos autores o fundador da moderna propaganda política. Diz ali o füher: “Toda propaganda deve estabelecer o seu nível intelectual de acordo com a capacidade de compreensão do mais limitado entre aqueles aos quais se dirige”. Ora, se o mais pobre de espírito dos ouvintes, ou leitores, compreender a mensagem, todos a compreenderão.
(Antônio Houaiss me dizia que metade dos telespectadores dos programas de Silvio Santos não acompanhavam seu vocabulário.)
Às recomendações de Vieira e Domenach, acrescentemos mais uma, a qual poderíamos chamar de ‘a parte física da retórica’. Quantos vezes, ao lermos um discurso sentimos uma certa decepção, quando nos lembramos da emoção que nos provocou sua audição, ao vivo?
Fazem parte da eloqüência, além da boa urdidura do texto, a boa voz e a boa dicção do orador, a gestualidade, o saber levantar e baixar a voz, o arroubo e a capacidade de proviocar cumplicidade, criando a necessária empatia com o ouvinte. O orador, lendo ou improvisando, precisa entender que está, sempre, no proscênio de um palco, dirigindo-se, como ator, a uma platéia que precisa conquistar primeiro pela emoção, para depois poder convcencê-las com suas razões. Primeiro a alma, depois o cérebro.
Só essas observações revelam a existência de dois ‘palcos’ distintos, oferecidos (a) pela televisão e (b) pelos comícios ou grande auditórios. Se estes pedem os grandes gestos, a voz bem colocada, a primeira exige moderação de gestos, a busca da intimidade com o telespectador, o tom coloquial e a boa articulação das palavras substituindo a empostação da voz.
Mas há algo em comum entre os dois ‘atores’: ambos precisam da assistência de fonoaudiólogos, o que sempre desprezamos. Mas já o nosso Padre Vieira -- e ele escrevia em meados do seculo XVII, no seu sermão já citado -- o sucesso do pregador, ou do orador diria eu agora, ou mesmo do candidato, depende do encontro de cinco circunstâncias: a pessoa (quem fala, sua presença física), a ciência (domínio sobre o que fala), a matéria (o assunto que desenvolve), o estilo (a eloqüência, os gestos, a encenação, os jogos de palavras) e… a voz.

Quinta: lei da desfiguração

Que também chamaríamos de lei da caricatura, significando o esforço visando a descaracterizar, ou desconfigurar a mensagem adversária, até à deformação. O melhor exemplo de tudo o que estamos tentando dizer é resumido pela caricatura, que, sem mentir, é simplesmente uma versão do real, cujo objetivo é destacar os defeitos do oponente, ridicularizá-lo, reduzindo a força de seus argumentos.
A lei da desfiguração é, também, um princípio da contrapropaganda.

Sexta: lei da contrapropaganda

Seu objetivo é fazer com que o público ignore os argumentos do adversário. Está articulada segundo os seguintes princípios:
a. desmontar a propaganda adversária, isolar os temas do adversário, classificá-los segundo sua ordem de importância e atacá-los um a um, assim descontextualizados;
b. identificar os pontos fracos e atacá-los: a) contra uma coalizão de adversários tentar isolar e atacar o mais fraco; b) entre as teses adversárias é igualmente a mais fraca que será combatida. Em síntese: encontrar o ponto fraco do adversário e explorá-lo, é a regra número um da contrapropaganda;
c. como não se deve atacar um exército pela sua vanguarda, mas procurando atingir seus flancos, não se deve atacar a propaganda adversária de frente;
d. não discutir as idéias do adversário, mas destruí-las ou ignorá-las, reafirmando as suas;
e. procurar desmoralizar o adversário, destacando seus defeitos; esta técnica leva a que, ao invés de debater uma tese, desconsidere-se o adversário (em outros termos: devemos ressaltar nossa tese e desconstituir a do adversário): “Se no passado de um partido ou de um político forem encontradas declarações ou atitudes que contradizem declarações ou atitudes presentes, o efeito, sem dúvida, é ainda maior: não somente o homem ou o partido serão desacreditados, mas também colocados na necessidade de se explicarem, no que se colocam em posição de inferioridade”.
f. identificar com fatos um erro concreto da propaganda adversária e com isso tentar desmoralizá-la toda;
g. tomar a iniciativa das ações, manter-se na ofensiva.
Esta última regra pode ser lida ao contrário: cair na defensiva, ou ser obrigado a atuar na defesa, é meio caminho para a derrota. Ter que explicar-se, é ceder a iniciativa ao adversário.

Sétima: lei da unanimidade e do contágio

Seu objetivo é transformar em ‘vontade geral’ as tendências focalizadas pela propaganda. O líder não pode anunciar-se falando em nome de um grupo, de uma facção que quer impor sua vontade ao conjunto da sociedade ou da coletividade. Pelo contrário, ele deve se apresentar como o portador da vontade coletiva, como o instrumento da opinião da maioria, como a expressão das massas. Assim, não se deve dizer ‘voto em fulano’, ou, ‘beltrano é o melhor candidato’, mas “o povo quer tal ou qual candidato”, o povo é contra isso ou aquilo, o povo é a favor ou contra isso ou aquilo, para o povo beltrano é o melhor candidato. Não se diz: somos contra as privatizações. Diremos: o povo é contra as privatizações: o eleitor que está a favor das privatizações descobre que ele, isoladamente, está contra o povo, porque o povo está contra as privatizações.
Por fim, é fundamental transmitir ao povo a convicção de que sua idéia é a vencedora. Donde, que seu candidato será o vencedor.

Oitava lei: do contraste

Esta lei aplica ao plano das idéias a lei psicológica do contraste: a fixação de uma idéia, ou de uma imagem, depende de seu contrário, ou de seu contraste. A luz precisa da escuridão para se afirmar. O que se dá no plano das cores, se dá no plano das idéias. Um cartaz com letras azuis sobre um fundo branco, dificilmente será notado, ao contrário de um cartaz com o mesmo fundo branco mas usando as letras nas cores vermelha e preta. Da mesma forma, as idéias precisam ser claramente diferenciadas. O povo não percebe as pequenas diferenças (isso é coisa de intelectual) e costuma juntar num mesmo grupo tudo o que é parecido entre si. Poderíamos mesmo dizer que o pensamento é binário. Portanto, quanto mais binário (ou maniqueísta) o discurso, melhor. De um lado o bom, de outro o mal. Mas ambos, bom e mau, ou o bem e o mal, são absolutos. Não permitem nuanças. O bom não tem defeitos. O mau tem todos os defeitos. Esta lei quer dizer que a propaganda política não é compatível com soluções médias, ou mesmo razoáveis, exige soluções radicais, cortes rígidos; seu objetivo é estabelecer contraste intransponível entre duas posições.
Exemplo de boa aplicação desta lei nos é oferecido pela análise à campanha pró-Tancredo e de implosão do colégio eleitoral montado pela ditadura para eleger Maluf (1984). A propaganda fez de Tancredo o bom, o cadinho de todas as nossas virtudes e, contrario sensu, de Maluf, o mau, o representante de tudo aquilo que era negado pelos valores da sociedade brasileira. Não havia meio-termo.

Nona: lei da identificação

A propaganda não se faz sobre o vazio; ao contrário, procura, na sociedade, em seus valores, seu fundamento. O candidato deve passar a idéia da perfeita identificação de suas idéias (de seu programa) com as idéias e as aspirações do povo. Se possível, demonstrar que o povo nunca desejou outra coisa senão aquilo. Essa lei de certa forma é atendida quando as campanhas eleitorais adotam formas participativas de elaboração dos programas e plataformas de governo (o segundo momento de identificação é com o mandato; o orçamento cidadão foi uma boa iniciativa nesse sentido). Essa identificação exige (a) um candidato em condições de transformar-se em símbolo dessas aspirações e (b) aspirações populares que se possam cristalizar numa grande emoção coletiva.

Décima: lei da reivindicação

A reivindicação é um suplemento indispensável da identificação: as aspirações identificadas como desejo coletivo precisam ser apresentadas como reivindicação: o povo precisa ser convencido de que realmente deseja aquele programa. Assim, o candidato não apresenta promessas, mas reivindicações de seu eleitorado. Isso possibilita que o candidato (isto é, o líder) fale como porta-voz do povo, nunca como seu mestre ou guia. Alguns exemplos. Em 1960 quando foi eleito a partir de uma plataforma de governo puramente moralista, Jânio Quadros simplesmente dizia encarnar uma vontade coletiva: era o povo que não agüentava ‘tanta bandalheira’. Ele se referia ao governo JK. Adotou como símbolo gráfico uma vassoura, íntima de toda dona de casa (com a qual vassoura varreria do Planalto os ladrões), um signo de extraordinário poder de síntese, comunicação e reprodutibilidade. Seu slogan ‘Jânio vem aí’ soava como um aviso/ameaça do povo aos corruptos. O mesmo, mutatis mutandi, se deu em 1989: Collor como ‘caçador de marajás’ apresentou-se como porta-voz de uma vontade coletiva. O discurso de ambos (não entramos no mérito) foi assimilado pelo povo (por essas e por outrs razões).

Décima primeira: lei da causalidade afetiva

Propaganda política é emoção: o argumento é substituído pela afeição: o argumento o mais cartesiano não chegará ao coração do povo, se despido de emoção. Emoção que contagia os partidários e intimida os adversários. Esta lição também está em Vieira, como vimos (‘para convencer, o discurso carece de alma’). Por exemplo: uma coisa é a informação, dada pelo repórter, pelo locutor ou pelo candidato de que há filas na porta dos hospitais, que pessoas retornam sem atendimento, ou mesmo que pessoas morrem nas filas dos SUS. Outra coisa é mostrar isso, com a dramaticidade do fato real, com as próprias pessoas falando sobre suas tragédias.
Quadro similar poderemos rever nas eleições de 2006. Lula facilmente fala aos corações das grandes massas (isto é, seu discurso está repleto de emoção), enquanto o candidato Geraldo Alckmin representa a exposição cartesiana, retilínea de equações.

Décima segunda: lei da empatia

O bom êxito da propaganda política reside na capacidade de fazer com que se estabeleça uma situação de mútua ressonância entre o eleitor e o candidato. Essa ressonância se dá, freqüentemente, com a sintonia entre o discurso (latu sensu) do candidato e as aspirações do eleitor, cabendo àquele sua identificação oportuna. Outro instrumento de identificação está na linguagem, tanto verbal quanto gestual, no que até a postura física (boa ou má aparência) do candidato tem relevância. Há, finalmente, elementos subjetivos –como a simples figura do candidato e o timbre da voz, por exemplo. Se há elementos que podem ser contornados tecnicamente, há outros dificilmente controláveis, principalmente quando as campanhas eleitorais são dominadas pela televisão e suas idiossincrasias. Há pessoas que ‘fotografam’ bem e outras não, há imagens simpáticas e imagens duras. A televisão põe nu o candidato, expõe à flor da pele suas emoções, revela sua alma, denuncia a insinceridade, a tensão, a impostação. Saber olhar para a câmara, e trocar olhares com o telespectador do outro lado, sentado em casa, a pouco mais de um metro do aparelho televisor (portanto a poucos passos do candidato que está recebendo em sua sala de visitas, ao lado de sua família, na hora do jantar), tudo isso precisa ser considerado, pois, em muitos casos, na televisão, a aparência é mais importante do que o discurso. O telespectador tem mais facilidade de fixar a imagem do candidato, que se repete no video, do que sua mensagem.
Assim, além da assistência de um fonoaudiólogo, o candidato precisa de um bom diretor de tevê.

Décima terceira: lei da economia de elementos

O discurso deve ser simples, como a propaganda em si, a propaganda gráfica, a propaganda audiovisual. O discurso deve ser direto, usando as palavras do universo vocabular dos eleitores. Os programas de rádio e de televisão deverão ter uma mensagem clara, objetiva, facilmente perceptível e exposta de forma clara e objetiva. As peças devem ter o mínimo de elementos, o mínimo de sinais e o máximo de mensagem concentrada. E esta mensagem é, sempre, só uma. Caberá saber eleger a mensagem fundamental da campanha e a mensagem fundamental de cada peça. Meio adequado é aquele que transmite uma idéia ao maior número de pessoas no menor espaço de tempo possível. A limpeza é uma lei gráfica.
A peça gráfica, seja o cartaz, seja o outdoor, seja o adesivo é vista, percebida e lida em movimento; ora adesivo corre pregado no vidro do automóvel; ora é o transeunte que atravessa a rua. Ou seja, as peças gráficas são vistas de relance, dependem de golpe-de-vista. Ou seja, só têm utilidade quando podem ser facilmente lidos.
Por fim, lembramos: a campanha deve ser unificada, do ponto-de-vista formal e ideológico. O discurso verbal não pode brigar com a estética da propaganda gráfica ou audiovisual; o discurso da tevê não pode chocar-se com o discurso do rádio (mas o programa de rádio não pode ser a reprodução da banda sonora do programa de televisão). Devem estar unificados pela mesma linha ideológica e pela mesma linha formal-estética.

Décima quarta: Técnicas de mobilização da militância

O autor de A mistificação das massas pela propaganda observa que o “delírio da multidão é essencialmente um estado rítmico, que compreende períodos de tensão, a que se sucedem bruscos relaxamentos. A realização de um desfile [passeata/carreata] ou de uma reunião deve levar em conta esse ritmo. E os oradores precisam ter o cuidado de entrecortar seus discursos com gracejos, frases irônicas, que detenham bruscamente o auditório e provoquem o riso, que é o melhor meio de unir uma multidão, dando-lhe uma espécie de cumplicidade alegre”.
Tchakhotine registra uma espécie de breviário para Criação do entusiasmo numa reunião, ‘breviário’ que reproduzimos com algumas adaptações:
1. animar os ouvintes, seja no auditório seja na praça pública, antes da reunião ou do comício, com serviço de alto-falante que transmita emoção, através de músicas, hinos e palavras de ordem; como se vê, a ‘distração’ aquece a platéia;
2. manter a agitação e o entusiasmo num crescendo até o fim da reunião ou do comício, ou da passeata;
3. de tempo em tempo o orador ou o locutor (animador) deve entabular um diálogo com o auditório, fazendo perguntas de respostas óbvias, tipo ‘Sim’ e ‘Não’. Ou outras assim: ‘Quem estiver contra Fulano levante o braço’. Outra alternativa é mandar o auditório levantar ou acenar com as bandeiras, faixas ou estandartes;
4. principalmente nos comícios, alternar hinos e músicas da campanha entre os oradores;
5. os discursos não devem exceder de 30 minutos (evidentemente esta regra não se aplica nem em Cuba nem na Venezuela…);
6. quando o comício ou a passeata estiver em seu final, orientar os militantes a se dispersarem em grupos, cantando e empunhando suas bandeiras;
7. decorar o ambiente, ou a área, com faixas, estandartes, galhardetes, bandeiras.

Décima-quinta: usar a força do inimigo

Uma das primeiras recomendações de Sun Tzu é conhecer o adversário: “Se conhecemos o inimigo e a nós mesmos, não precisamos temer o resultado de uma centena de combates. Se nos conhecemos, mas não ao inimigo, para cada vitória sofreremos uma derrota. Se não nos conhecemos nem ao inimigo, sucumbiremos em todas as batalhas”. Conhecer a si próprio significa saber das forças de que dispõe para a campanha, e saber compará-las com as dos adversários. Esse é um bom começo: mas tão ou mais importante é conhecer o adversário, suas forças, para evitá-las ou neutralizá-las, e identificar seus pontos fracos para melhor explorá-los. É o próprio inimigo quem fornece ao seu adversário a oportunidade de derrotá-lo: a campanha não pode errar (oferecer flanco desguarnecido ao adversário) e não pode deixar de explorar um só erro do adversário. Acima de todas essas possibilidades, e até para poder aproveitá-las, está a unidade da campanha. Partido dividido, campanha dividida, candidatura sem unidade é certeza de derrota, ainda que seu adversário seja fraco.
Por fim, jamais fazer pouco do adversário.


Última lição: o magistério socialista

Mas nós, os socialistas, lidamos com uma décima-sexta lei: a do proselitismo. Nosso objetivo, numa campanha, é ganhar as eleições. Como toda gente. Mas ao contrário dos candidatos conservadores, nós também queremos informar a população, educar o povo, difundir nosso programa, divulgar nossa sigla. Temos uma missão pedagógica para além do pleito, que é a defesa do socialismo, a defesa de nossas teses, a defesa de nosso Programa. Sem isso, vale a pena ganhar? Nossos candidatos não se prestarão, nem na campanha nem no mandato, ao papel subalterno de correias-de-transmissão do sistema: na campanha e no mandato são seus adversários mortais. Para nós, as eleições não são um fim, mas instrumento de conquista do poder, poder que queremos conquistar para nele promover transformações essenciais. Repito: ganhar para mudar e jamais mudar para ganhar. Para nós a campanha eleitoral não constitui um fim, mas instrumento de difusão de nossas idéias.
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