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O futuro chegou: a crise alimentar e energética
Partido Socialista Brasileiro - PSB
10/06/2008 - 08:17
O preço do petróleo está batendo recordes quase diariamente, no momento ele gira ao redor de 120 dólares o barril. O índice dos preços de alimentos da FAO (1998-2000 = 100) foi em média 127 em 2006 e 157 em 2007, subindo para 220 em março de 2008. Nunca em tempos de paz houve pressões inflacionárias tão violentas a partir do encarecimento de bens essenciais. Eis a grande novidade desta dupla crise que se deve às mesmas causas: a redução da pobreza em grandes países periféricos, como a China, a Índia e o Brasil (além de outros), que expandiu fortemente a demanda por derivados de petróleo e por alimentos ‘nobres’ – carne e laticínios, cuja produção exige muito mais trabalho humano, energia e recursos naturais não renováveis como terra e água.

A elevação dos preços de petróleo e comida deveria provocar um aumento de sua produção, pois seu encarecimento a torna mais lucrativa. Mas, a elevação da produção alimentar esbarra na disponibilidade de terra e água, limitada pela sua poluição pelos elementos químicos utilizados pelos agricultores. O mesmo vale para o aumento da produção de petróleo, limitado pelas reservas exploráveis. Estamos nos defrontando com um cenário que Celso Furtado previu em 1974, quando escreveu O Mito do Desenvolvimento. Ele sustentava que era um mito esperar que o desenvolvimento econômico dos países do 3º Mundo lhes permitiria alcançar o nível de vida usufruído apenas pelos povos do 1º, porque não haveria recursos naturais suficientes para que isso pudesse acontecer.

Quase um terço de século decorreu desde então e o que parecia na época um exagerado temor maltusiano tornou-se consensual, sobretudo desde que se comprovou que o clima da terra está aquecendo, com conseqüências danosas para os recursos naturais. A nova classe média, nos países chamados de emergentes, passou a ter dinheiro para alcançar o padrão de vida de sua congênere do 1º Mundo. Esta mudança seria desejável se ela não impactasse desfavoravelmente sobre a grande massa que continua pobre. A carestia da comida, causada pelo aumento da demanda dos ex-pobres, empobrece ainda mais aos que já gastam a maior parte do que ganham para alimentar a família. Os cereais que lhes mataria a fome tendem agora a ser dados aos animais cujos derivados alcançam preços cada vez mais atraentes.

O funcionamento do mercado mundial de alimentos produz ‘naturalmente’ estes efeitos perversos. Motins da fome estouram em cada vez mais países e, segundo a FAO, em 37, dos quais 21 africanos, há crise alimentar. Premidos pelo desespero dos famintos, cada vez mais governos (inclusive o brasileiro) tratam de restringir a exportação de alimentos básicos, para garantir o abastecimento do mercado interno. O que naturalmente agrava a situação dos pobres nos países que dependem de alimentos importados.

A ONU, alarmada com a gravidade da situação, está solicitando das nações mais ricas recursos para impedir que a fome se alastre pelo mundo, pondo em risco não só o combate à pobreza, mas também a paz no mundo. Governos terão de adotar medidas de emergência para garantir um abastecimento alimentar mínimo a todos: estatizar os estoques de alimentos para evitar que sejam açambarcados pelos que têm dinheiro para formar estoques privados. E racionar a sua venda, por preços que os mais pobres podem pagar; eventualmente, taxar mais os alimentos derivados de animais para possibilitar o aumento da produção dos alimentos vegetais, indispensáveis à nutrição do conjunto da população; taxar também os derivados de petróleo, para reduzir a utilização do transporte individual e aumentar a do transporte coletivo.

A crise alimentar e energética poderá talvez ser contida por medidas como estas, mas a sua resolução exigirá mudanças mais profundas. Os padrões de consumo terão que ser acomodados à real disponibilidade de recursos naturais, e esta deverá ser alargada por mais investimentos no aumento da produção agrícola sustentável do ponto de vista social e ambiental. As crises energética e da mudança climática terão de ser resolvidas pelo desenvolvimento de fontes renováveis de energia limpa, única maneira de acabar com as emissões de gases resultantes da queima de combustíveis fosseis. A crise alimentar não pode deixar de limitar, em alguma medida, a produção de agro-combustíveis, de modo que o desenvolvimento de outras fontes de energia – solar, eólica, hidráulica – terá de receber prioridade.

Tudo isso é manifestação duma crise ecológica mais ampla, cuja superação vai exigir mudanças na economia, na produção científica e nas instituições políticas. Na economia, os sistemas de preços e tributos terão de estimular os comportamentos que protegem os recursos naturais escassos e coibir os que os consomem ou destroem. No âmbito da ciência e da produção do conhecimento, a informática poderá fazer com que a quase totalidade das pessoas possam participar dele, inclusive desde muito jovem, sem ter que se dedicar unicamente a ele, o que deverá aumentar enormemente o arsenal de conhecimentos à disposição de produtores e consumidores. Quanto à institucionalidade política, a generalização da democracia no mundo – uma tendência na atualidade – deverá fazer com que a informática se torne instrumento de acesso para que a maioria dos cidadãos possa participar diretamente dos negócios públicos. Estas mudanças já estão em curso. Terão de ser aceleradas para a superação da crise ecológica.

Paul Singer
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