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10/06/2008 - 17:44
Quando articulava, com as dificuldades conhecidas, a formação de centro político democrático, a fim de romper o impasse em que nos encontrávamos, Tancredo lamentava a falta de visão de alguns grupos de esquerda – entre eles, o dos petistas. Encontrava, nos intelectuais e sindicalistas de São Paulo, aquilo que Lênin denominava de doença infantil do comunismo: um radicalismo de esquerda sem fundamento na razão dialética da política. "Um país que tem as esquerdas que temos – disse a um amigo – está dispensado de ter direita".
Nesses 30 anos, alguns aprenderam com o tempo. Outros, não. O PT se dividiu entre os pragmáticos e os que não sabem bem como conciliar as idéias com as fadigas que o exercício do governo impõe. Entre os muitos percalços do poder se encontra a necessidade de negociar com quem tem mais votos do que escrúpulos. Sérgio Motta, que entendia dessas coisas, e a quem seu chefe delas incumbira, se referia com freqüência à lubricidade moral de seus interlocutores no Parlamento.
O sistema representativo, com o processo de formação das casas parlamentares, é complicado e pouco funcional mecanismo de intermediação entre o cidadão e o Estado – mas não há outro melhor. O Poder Executivo deve a ele subordinar-se, mas, como a prática nos mostra, a isso resiste. Essa disputa, sem embargo da tensão estressante que se transfere à sociedade, é necessária e útil. Sem que ela houvesse, o Poder Executivo se tornaria inoperante ou o Poder Legislativo perderia sua razão de ser. Alguns observadores desiludidos com a erosão ética do Congresso (e não só no Brasil) acreditam que os parlamentos de hoje perderam a legitimidade, com a corrupção de alguns de seus membros. Essa legitimidade, de acordo com a análise, se esfarela a partir do momento eleitoral, porque os que os elegem dispõem de titulo eleitoral, mas nem todos são cidadãos. Ser cidadão é mais do que comparecer às seções eleitorais: é ter consciência do direito e do dever de, por intermédio do voto, exercer sua parcela de soberania sobre o Estado, e não se deixar conduzir pela demagogia de candidatos nutridos pela força corruptora do poder econômico.
O governo sempre se exerce bem quando se exerce no centro, e esse centro se localiza naquele ponto de útil equilíbrio entre as duas pontas do espectro ideológico. Para que ele expresse o possível e necessário, é preciso que atuem com responsabilidade e inteligência a direita e a esquerda. Ocorre que se Tancredo fosse ainda vivo, inverteria hoje os termos de sua observação: um país que tem as direitas que temos, está dispensado de ter esquerda. Os bravos representantes das oligarquias nordestinas se encontram perdidos. Não se deram conta de que já não são mais os engenhos – descritos por José Lins do Rego – que estão de fogo morto. O fogo das fornalhas, símbolo do poder que depois se transferiu, ampliado, para as usinas, tornou-se fátuo, do ponto de vista político. A luz nas grotas e os novos meios de comunicação estão acabando com os currais eleitorais do interior. O desenvolvimento econômico, a partir do consumo, promove a extinção da miséria. Quando as pessoas comem, começam a pensar melhor. A direita poderia, é claro, oferecer alternativas de ação política, como ocorre em outros países. Há parlamentares conservadores providos de conhecimento e de habilidade para isso, mas eles se encontram com as pupilas perturbadas pela súbita claridade. Seja durável ou não, a rápida prosperidade nacional os golpeou. Estão aturdidos à procura de idéias, e, na falta delas, se transformam em caçadores de escândalos. Até nisso, estão sendo vencidos pela realidade: o Ministério Público, transformado, pela Constituição de 1988, em poder autônomo, e a Polícia Federal, que – queiram ou não – é uma repartição submetida ao Poder Executivo, disso se encarregam com muito mais eficiência do que as estabanadas CPIs.
Essa situação tende a agravar-se nos próximos dois anos, uma vez que a campanha sucessória já se iniciou, na garupa das eleições municipais. Se a direita não for capaz de construir candidatura própria, seus líderes podem cair na sedução de buscar a desestabilização do processo eleitoral. No passado, ela sempre contou com o golpe contra a vontade popular. Hoje, os militares sabem muito bem de onde procedem as ameaças à nossa soberania.
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