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A incursão de um analista na alma da política
Partido Socialista Brasileiro - PSB
                                                                                                      Roberto Amaral



Posso afirmar que acompanho a gestação de A paranóia do soberano há mais de trinta anos, pois ele tem a idade da incursão definitiva de seu autor na psicanálise. Explico: Valton não é mais um psicanalista, dentre tantos, a intervir analiticamente na política; é um militante político, é um cientista político de rara formação humanística que afinal opta pelo estudo da alma (quase escrevi angústia) humana, esse oceano profundíssimo e céu infinito de surpresas e lições. Está quase tudo nesta obra, que é apenas a primeira. Ela própria é o prenúncio dos ensaios que se seguirão, completando-a. E neste sentido é doação, porque resume a experiência clínica de um político, e ao mesmo tempo é a visão politizada da psicanálise, o encontro da psicanálise com a ciência política, num esforço notável para a compreensão da tragédia moderna: o fracasso da política, o fracasso de nossa civilização, a crise da racionalidade, a morte da alma ocidental.
Tanto a psicanálise quanto a política ocidentais, e as fontes de Valton são Marx, Freud e Melanie Klein, se encontram no grande carrefour de nossa geração: a crise do Ocidente. Crise absoluta porque é, fundamentalmente, uma crise de valores, permeando tudo o mais e, portanto, a vida material. E quanto mais reduzimos a atual experiência humana à história deste pedaço do Mundo, mais entendemos quanto a alma ocidental é pequena para compreender o Mundo.
Daí a 'loucura' que nos aflige a todos, mas aflige principalmente os que se envolvem com o poder, com a conquista do poder, com a conservação do poder, o poder-Deus, onipotente, salvador, o poder meio, o poder fim, o poder opressão, o poder-razão-do-poder, o poder pelo mando, o poder desprovido de qualquer tábua de valores éticos. O poder que se legitima pura e exclusivamente pela sua eficácia. Freud, ele mesmo extraordinário analista político, confundirá o direito com a força. Em sua conhecidíssima carta a Einstein, afirma que o direito surgiu da força --o que não seria difícil demonstrar, diz ele, “retrocedendo até às origens arcaicas da Humanidade”-- pelo que o domínio deriva da força bruta ou intelectualmente fundamentada. E conclui, lembrando a influência de Marx em sua formação: a paz só é concebível teoricamente, pois ela está comprometida pelo fato de que “desde um princípio a comunidade está formada por elementos de poderio díspar, por homens e mulheres, filhos e pais, e, em pouco tempo, como conseqüência das guerras de conquistas, também por vencedores e vencidos que se convertem em senhores e escravos. O direito da comunidade transforma-se então em expressão da desigual distribuição de poder entre seus membros; as leis serão feitas pelos dominantes e para os dominantes, e concederão mínimos direitos aos subjugados[1].
 Valton, cuja primeira leitura do fato político se faz pelo método oferecido pelo marxismo, vai estudar o poder coletivo a partir do homem, o homem indivíduo, o homem angústia objeto da intervenção seminal e libertadora de Freud. O poder condenação, pena sem sursis, porque o homem está condenado à liberdade e à busca do poder.
Escafandrista da dor -- e dor humana é uma tautologia--, o cientista político trabalha com o conceito de comportamento paranóide para identificar aqueles gestos, aquelas condutas, aquelas vidas que, para o bem e para o mal --o julgamento há-de fazê-lo a história dos vencedores, como sempre-- transformam a vida e o mundo. O suicídio de Getúlio (eis personagem e gesto que nos apaixonam) é arquitetura racional e lúcida que não guarda qualquer concerto com o gesto do Otelo desesperado em face de uma Desdêmona cuja inocência só tardiamente romperia com a loucura do mouro. É possível imaginar mais racionalidade --e uso o termo em oposição livre a paranóia-- do que no gesto moral de Antígona a cobrar e dar sepultura a Etéocles, restituindo-lhe o direito a repousar no Hades, mas conscientemente condenando-se à morte? E relembremos Sartre nos mostrando as raízes da escolha humana como derivação da liberdade humana, liberdade da qual não se aparta, que é tanto a fonte de seu ser no mundo quanto de sua angústia. Loucura pode ter sido o gesto meticuloso de construção do III Reich, embora o holocausto e o extermínio nos campos de concentração dependessem, para o êxito, de muita racionalidade, de engenho, arte e ciência. Onde radicava a paranóia stalinista? Na resistência racionalmente impossível ao invasor nazista, arrostando contra toda lógica da guerra, ou no exercício diário, contínuo da tirania, transformada no trágico amálgama de seu poder? Que havia sido feito de nossa racionalidade --da racionalidade nossa de marxistas (e o marxista é por definição um racionalista, não duvidem) -- quando não tínhamos/não tivemos olhos para ver o que, em nome do mais libertário dos humanismos -- o socialismo--, se estava fazendo contra os direitos humanos no Leste Europeu? Não víamos, porque o fenômeno não era perceptível pela nossa inteligência, ou não víamos porque, num processo paranóico de auto-defesa não queríamos ver. Não ver para não conhecer, fugindo da responsabilidade que decorre do conhecimento? Não queríamos conhecer a paranóia do regime enfermo para fugirmos de nossa própria enfermidade, inevitável, diante da destruição de crenças, razões, verdades, ciências e consciências? Diante da destruição de nossa própria razão de viver?
Na medida em que ignorávamos (ou negávamos?) a realidade, não nos sentíamos por ela responsáveis. (Mas na verdade nos tornamos por ela responsáveis, porque não soubemos denunciá-la)
Valton se debruça sobre a realidade brasileira e nela intervém como anatomista implacável, dissecando, para espanto de nossa racionalidade, a loucura-eixo-motor de nossa história, severina: há um concerto de perversidade explicando o crime monstruoso da exclusão social, e a paranóia não é atenuante para nossas elites, anti-povo e anti-nação. Esses ‘loucos’ não podem argüir a insanidade como defesa. São responsáveis pelos seus atos.
É mais fácil absolver a 'loucura' do Conselheiro do que a racionalidade do latifúndio que punha em seu encalço as forças disciplinadas do Exército; havia menos loucura nos seus famélicos sem-terra --desesperados e despossuídos desde sempre-- do que nas tropas republicanas e seus generais positivistas. O tresloucado general Moreira César (também conhecido como ‘Treme-treme’) ficou na história do triste episódio de Canudos --no qual o Exército brasileiro foi instrumento do primarismo e dos preconceitos (e da ganância) de nossas elites— não apenas como oficial desastrado e despreparado, mas acima de tudo, como uma figura ridícula (ridícula, mas cheia de poderes nas mãos). Já o Conselheiro, cuja imagem é reconstruída por uma nova história descomprometida com os interesses dos Geremoabos da vida, conserva-se em seu perfil de dignidade, ainda que mística e messiânica.
O que é loucura e normalidade na política, se a política, se a opção política é, por si, por definição, uma escolha que implica obsessão, impõe a construção de uma nova tábua de valores, uma deontologia autônoma em face da ética, uma teleologia desapartada de quaisquer compromissos que não digam respeito ao êxito, ao sucesso, à vitória?
Porque o poder é a única justificativa do poder. Seu fim não é necessariamente o bem-comum, mas ele em si: o dever no governante é garantir a conservação do poder.
Maquiavel antes de Freud.
Desmistificados, convivem conosco, nestas páginas que se seguem, os personagens de nossa história recente, iluminados por um novo foco de abordagem, absolutamente original e revelador, proporcionado pelo encontro de Maquiavel, Marx e Freud.
Portanto, este livro não é obra de um psicanalista, nem se destina ao seu público, tão-só. Trata-se de obra multi-disciplinar que só poderia ser escrita por um cientista político com formação e clínica analítica. Precisa ser lida por todos aqueles que desejam compreender a realidade para mudá-la, amanhã, se possível. Talvez ajude a demonstrar, para muitos marxistas, a relevância da subjetividade, e ensinar a muitos psicanalistas a imprescindibilidade da intervenção na realidade objetiva, onde o homem se cria e cria o mundo. E a aí temos as bases de um novo humanismo. Para cuja construção não está preparada a vida política brasileira, não está preparada a democracia representativa, e menos que todos não estão preparados os partidos políticos, todos, e mais preocupantemente, os partidos de esquerda, cada vez menos de esquerda, descrentes do projeto revolucionário originário e ineptos como reformistas.
Pois é nos partidos, todos --sem representação, sem programas diferenciados, governando sem compromissos programáticos, autofágicos todos na luta pelo poder interno--, que a paranóia mais se revela. A autofagia de grupos e dos grupos no poder, no governo, em todas as organizações e espaços de mando, é uma conseqüência dessa paranóia primária.
Esta obra só poderia ser escrita por um intelectual militante.
 (Todos esses temas discutíamos, ainda em Fortaleza, faz mais de 30 anos, e ainda hoje discutimos, porque nossas próprias biografias integram esse maravilhoso invento que é a vida-loucura humana.
 (2004)




* Prefácio (revisto) ao livro A paranóia do soberano, de Valton Miranda Leitão. Vozes. Petrópolis. 2000.

[1] El porque de la guerra’, in FREUD, Sigmundo. Obras completas. Tomo III. Editorial Biblioteca Nueva. Madri.. 1981. pp. 3208-9.

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