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A missão política do intelectual: rejeitar sua origem de classe
Partido Socialista Brasileiro - PSB
                                                                                                     Roberto Amaral

“E quantas vezes os que pareceram acasos, foram conselhos altíssimos da Providência?”


É Vieira, no Sermão de Santa Teresa, pregado no Colégio da Companhia de Jesus, na ilha de São Miguel, aonde chegara como um Jonas, vomitado das ondas.
À falta de méritos, quaisquer, que justifiquem esta recepção --e me permitam que de logo eu a proclame entre amigos antes que o crítico a anuncie de público-- permitam-me saudar o acaso planejado desse nosso encontro.
As amizades agem tecendo as fortuidades tal-qualmente a Providência do crente, o fado, bom fado, a sina, boa sina, o bom destino, o maktub ou as leis objetivas da história. Por isso estamos aqui. Expulsado da terra natal --e do destino no qual então vivia, pensando que o traçava com minhas mãos--, expulsado de Fortaleza e da política pela modernidade autoritária de 1964, que tudo esmagou, a começar pelos sonhos e pela liberdade, vivia eu nesta cidade de São Sebastião as dores do semi-exílio, do sem-destino, do sem-amanhã, em torno de algo que não a esmo nos une a todos como frades, confrades: o livro, fazendo-o no anonimato precatado, para outros, autores, livreiros, leitores. O quase clandestino era editor, atividade de retaguarda que o jovem procurava desenvolver ao lado de outras, menos ortodoxas, muito menos canônicas, mas muito mais necessárias, historicamente, pensa ele ainda hoje. Faz tempo, porque foi no tempo das trevas, faz tempo e já temos idade suficiente para não contar os anos, senão para dizer que são muitos pois do tamanho de uma grande amizade.
Voltemos à remissão, cuja lembrança esclarece o acaso.
Os tempos eram duros e nos remetem ao tema de Jonas lembrado no Sermão de Vieira: "Em terra onde os terremotos são tão contínuos e tão horrendos: em terra onde os montes são vivos, e comem e se sustentam de suas próprias entranhas, e estão lançando de si os incêndios a rios: em terra onde o fogo é mais poderoso que o mesmo mar". Os terremotos que desfiguravam nossa história desfaziam/desteciam a vida e suas crateras consumiam nossa juventude. Era uma terra triste, governada pelo medo. Do homem fôra roubado o sonho.
Nesta terra e nestes tempos de espantos, proibido de exercer a profissão a que me habilitara depois de inumeráveis percalços militares, afastado da advocacia, fui, e não fui o único, corajosamente acolhido na Fundação Getúlio Vargas, pelas mãos que hoje homenageio de seu fundador, Luiz Simões Lopes. Quiseram os fados que ingressasse como redator --habilidade que me restara dos tempos em que o banco escolar era partilhado com o jornalismo de opinião -- e fosse exercer o meu ofício no Serviço de Publicações daquela Casa. Foi uma vida de longos seis anos pois foram dos mais difíceis sob o mandarinato castrense. Diga-se, porém, falando alto, que a instituição conservadora e dependente do governo jamais cedeu às pressões, nem das centúrias e nem dos batalhões civis das denúncias encapuçadas. Nesse ambiente, nessa vida de sustos e medos e ameaças em que tudo era provisório, tênue, frágil, o trabalho, a liberdade, a vida até, vi-me organizando o projeto da Editora da Fundação Getúlio Vargas e, ao final de meu tempo, seu diretor. Essa tarefa eu não poderia desenvolver e nem supostamente levá-la a bom-cabo, se o levei, se não contasse com o apoio de Benedicto Silva, um dos remanescentes do diminuto grupo daspeano dos fundadores da FGV e do ensino profissional e acadêmico da administração pública, e criador e diretor de seu Instituto de Documentação, ao qual estavam afetas as atividades editoriais. É ao publicista, administrador, educador, autor e editor Benedicto Silva, ascendido ao quadro dos beneméritos, que me cabe --e lá vem de novo o planejamento do acaso-- substituir em cadeira nesta casa, graças, e se não há por que escondê-lo digamo-lo em bom tom, à engenharia cerzideira de outro amigo, Antônio Houaiss, que hoje me recebe. Pois fôra Houaiss, o resistente --o escritor e tradutor, tradutor de Ulisses, o autor de Elementos de Bibliologia, o editor de enciclopédias, que havíamos tomado como mestre naquela tarefa de transformar em Editora moderna um humilde e quase só burocrático Serviço de Publicações de uma quase só repartição pública. Saído da Fundação Getúlio Vargas, reencontro-me hoje com Benedicto Silva, passados 23 anos, graças à arte e engenho do P.E.N. Clube, que nos faz consócios.
Este momento de hoje foi construído nesses encontros/acasos do final dos anos 60. Se não é possível atribuí-lo ao planejamento daqueles anos, é igualmente certo que há pouco de acidental nele: suas raízes estão numa velha causa que ano após ano é a mesma dos que nos antecederam, dos que tombaram, dos que não puderam chegar até aqui para, finda a luta, conhecer a nova luta: a batalha sem quartel pela liberdade, pela democracia, pela justiça social, pela dignidade, pela cidadania. Pela humanidade.
Não sei que títulos tenho para apresentar-me, nem por quais títulos fui julgado pelos meus hoje pares. Pois um só título de mérito reivindico: o de militante. Porque o intelectual é, fundamentalmente, um militante, na cátedra, no texto, na ação.
Não sei se há a categoria do intelectual universal, universalista, erga tempus, erga homines, erga mores, erga vida, erga história, não sei mesmo se há valores universais, intemporais, reinando sobre os homens e seus destinos. Desconfio que não. Sei do papel do intelectual no mundo da escassez governado pelo lucro, braços descruzados diante das iniqüidades sociais; sei de seus deveres, não como grupo social, mas como indivíduo, individualidade, responsável cada um de nós, indivíduo, sujeito, pelo seu gesto ou pela sua omissão, porque o intelectual que se supõe apolítico é o político que foge do confronto, aceitando/apoiando os dados do jogo da dominação. O intelectual moderno é herdeiro dos philosophes das Luzes --permitam-me lembrar o ativismo de Montesquieu, Voltaire, Rousseau, D'Alembert, Diderot-- comprometido, portanto, vida e obra comprometidos, a reflexão, a análise, o saber como instrumentos da práxis; mas a burguesia não é mais classe universal, nem revolucionária, nem expectante da liberdade e da liberalização; é a classe que exerce a hegemonia em oposição ao que resta de humanidade. Se os philosophes do século XVIII --revolucionários-- desempenhavam, para usar uma terminologia contemporânea, o papel de intelectuais orgânicos de sua classe, o intelectual de esquerda é o que nega sua própria classe. Nessa negação residem sua tragédia e sua grandeza, seu drama e sua vitória contra os condicionamentos, contra os imperativos ideológicos, contra os determinismos, contra as funções que lhe são previamente atribuídas.
O papel desse intelectual herdeiro do Iluminismo   não é, pois, explicar o mundo (ainda que de um ponto de vista de classe); é denunciá-lo para poder transformá-lo, e a única transformação possível é no sentido do progresso da história. O intelectual de esquerda é o que se recusa a representar seu interesse de classe. Não podem produzi-lo os excluídos. Nós somos seus mandatários, e esse mandato não outorgado formalmente é recolhido por um imperativo ético-humanístico. É este humanismo que nos faz definir-nos diante da iniqüidade social. O intelectual brasileiro, todo intelectual, é selecionado pela sua condição de classe para ter acesso à ciência e dominar um conhecimento e a técnica de sua utilização, de seu emprego. Cabe-lhe, na sua solidão, decidir-se, decidindo os interesses pelos quais lutará. Isso quer dizer que o intelectual, ao tomar consciência de si e do mundo, e do ser no mundo, tem que dar as costas aos seus próprios interesses, pessoais, burgueses e de classe. A tomada de consciência de sua origem determina a opção de seu papel histórico.
E não há como não definir-se.
Insistamos uma vez mais; por escolher-se não identificamos a decisão de uma categoria, a tomada de posição do intelectual ser-coletivo, mas a escolha individual que todo ser humano é chamado a fazer, diariamente, a cada momento, definindo o seu papel na história, definindo-se como sujeito, optando por determinada ordem de interesses concretos, assumindo-se como um projeto do qual é o próprio artífice. 
E no que se define, se auto define, o homem assume a responsabilidade de seus atos e se torna responsável pelo mundo.
Por isso, talvez por isso, certamente por isso, entre nós, o intelectual de esquerda há de ser sempre um gouche na vida, ou um out-sider do poder, isto é, um adversário da hegemonia de classe. Cabe-lhe, como assinala Sartre, a tomada de consciência, nele e na sociedade, da oposição entre a busca "da verdade prática (com todas as normas que ela implica) e a ideologia dominante (com seu sistema de valores tradicionais)", sabendo que milita uma contradição insuperável entre a busca da verdade (a saber, a construção do conhecimento) e a inevitabilidade de tal busca realizar-se em condições que não escapam à pressão das ideologias. Cabe-lhe promover a inquietação, negar a realidade constituída e promover a renovação do pensamento científico. Cabe-lhe a contradição e, quase sempre, remar momentaneamente contra a maré, sem medo de afogar-se. Remou Zola contra as evidências, contra a lógica, contra o sistema, contra a Justiça e a injustiça, contra o racismo, e o seu Acuso !, ação de militância mais que tudo, é a mais importante obra do intelectual. Mas remou finalmente a favor da história. Como remaram Brecht, os frankfurtianos, os intelectuais alemães de esquerda em geral, como remaram Gramsci e os intelectuais da resistência francesa, e o próprio Sartre, acompanhado de tão poucos na defesa do povo argelino. Como remou Russell com seu notabilíssimo Tribunal Internacional de Crimes de Guerra.
Que faziam entre nós, nos primeiros dias da Aleluia militarista --tão louvada em louvaminhas de prosa e verso-- os artigos de Tristão de Ataíde e Cony? Que fazia o Editor Enio Silveira?
Mas o escritor, sempre homem do seu tempo, fala com a sua palavra mas fala também com o seu silêncio. Sartre consideraria Flaubert e Goncourt responsáveis pela repressão que sofreu a Comuna, porque não escreveram uma só linha para impedi-la. Esqueçamos, por um curto momento, os nossos próprios silêncios-- como o terrível silêncio dos anos 70--, para exaltar a tradição dos nossos fundadores, desde os intelectuais da Inconfidência, desde o jovem John Jay aos Tomaz Antônio Gonzaga e ao Alferes, passando por José Bonifácio e tantos dos que fizeram da palavra e do texto um instrumento de luta, mandatários dos que não têm o direito de manejar esses recursos da cidadania moderna. Eu saudaria os que hoje, furando a humilhante cortina da unanimidade, resistem ao monopólio ideológico, falado e escrito, de uma modernidade conservadora, antinacional, anistórica, momentaneamente vitoriosa.
O intelectual está, por definição, engajado em todos os conflitos de seu tempo, e em face deles todos ---conflitos de classes, de nações, de raças, de religiões, de sexo-- ao definir-se, ele só pode definir-se ao lado do oprimido, porque todos esses fatos --e entre eles as guerras, francas ou escamoteadas, a dominação de homens e povos, são manifestações da opressão do dominante sobre o dominado. O intelectual é, este intelectual de esquerda deve ser, permitam-me uma vez mais recorrer a Sartre, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos.
Este intelectual não é o vanguardeiro das grandes causas universais nem das grandes condenações morais, porque ele aprendeu que o universal só se constrói no particular, e que os bons propósitos se esvaziam se não têm conseqüência na ordem prática. Não posso pretender a paz universal se não enfrento a violência que me cerca. Não basta ser contra a violência em geral, se não sei distinguir a violência da terra negada da 'violência' do sem-terra invasor que quer terra para trabalhar.
Um notabilíssimo intelectual orgânico, em paz com sua origem de classe, condena hoje as manifestações populares; chega mesmo a acoimá-las de 'organizadas', como se aos pobres ainda fosse, na democracia burguesa, condenável o direito essencial à organização. Muitos dizem: sou contra as reformas liberais, mas sou igualmente contra essa maneira de combatê-las. E assim, esses intelectuais encontram o seu método de serem a favor das reformas anti-sociais, sem se assumirem como conservadores. São os mesmos que em outros tempos se diziam contra a violência militar e igualmente contra a violência que procurava enfrentá-la por absoluta falta de alternativa de luta, e hoje se esquecem de que foram os possíveis erros daqueles que engrossaram a lista dos mortos e dos 'desaparecidos', que possibilitaram a construção bem-comportada do regime de transição no qual todos vivemos e do qual hoje muitos se aproveitam.
O engajamento, ou a literatura comprometida, militante, ressalte-se, porém, não faz, necessariamente, concessões estéticas ou formais. Eu poderia citar o mais artesão de nossos autores latino-americanos, o garimpeiro da palavra e o ourives do texto, o mais nacionalista e americano e por isso mesmo o mais universal dos escritores cubanos, Alejo Carpentier, também ele, em seu tempo e em toda sua vida, o mais político e comprometido de nossos escritores. Comprometido mediante o texto e a ação, mediante a vida. O ficcionista extraordinário do El siglo de las luzes e de La consagración de la primavera, fundador do real-maravilhoso, sempre nos ensinou, cumprindo ele próprio a lição, que o dever do escritor latino-americano é revelar a realidade, e a realidade é o ponto de partida da criação. Sem jamais confundir o realismo, como estilo, ao hábito de "usar una pluma demasiado suelta", conselho que fôra recolher em Flaubert, leitura de cabeceira. Queremos dizer que o escritor comprometido, o escritor, como o artista que convive com a cidade, com as ruas, com seu povo, participando de suas lutas, suando como ele, é quase sempre um escritor maior, como foi e é entre nós Graciliano Ramos, cujo texto-vida, produto de tanta guerra encarniçada, comprometido com a história de seu povo, comprometido em sua construção e em seu progresso, era fruto de um trabalho quase doloroso de muitas páginas jogadas à cesta, começadas e recomeçadas até o ponto em que a denúncia necessária pudesse ter o sabor de um poema.
Todo intelectual, particularmente em nosso continente e em nossos tempos, deve viver sua época, o que muitas vezes é um padecer, gozar sua época --se a graça lhe é dada-- cuidando de melhorar-se e melhorar a terra e a sua gente, agindo não só em função das contingências que o cercam, mas principalmente em função de sua atitude, de seu comprometimento diante dessas circunstâncias. Comprometido sempre com a justiça, com a igualdade, com a fraternidade, com a felicidade.
Assim me apresento, vaidoso por estar convosco como um par, humildemente cônscio das responsabilidades da convivência e do trabalho comum.
A grandeza de nossa entidade não reside, eventualmente, em pensar como pensa o consócio neófito, mas no permitir que este pensamento aqui conviva ao lado de tantos outros, coincidentes ou díspares, construindo o debate livre, admitindo, numa casa de escritores, ensaístas, poetas, novelistas e editores, um simples militante para quem a palavra é enxada em busca de terra.
Comungando com esses ideais de tolerância, cujo exercício permite a convivência do distinto, do diverso e do conflitante, saúdo o P.E.N. Clube do Brasil como casa fundada para lutar pela liberdade, sem a qual, não há vida intelectual.
É hora de reafirmar a imprescindibilidade da convivência intelectual com todos os povos, que devem sobreviver com seus valores, dignificando a política como instrumento de aproximação da humanidade.
Uma política cultural consciente das diferenças de classes e lutando contra elas, acima das crenças religiosas, ignorante de diferenças de cor, denunciadora de toda e qualquer discriminação.



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* Discurso de posse como membro titular do P.E.N. Clube do Brasil, em sessão de 28/06/95

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