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A real vitória dos Silvas
Partido Socialista Brasileiro - PSB

Ao elegerem Lula com mais de 60% dos votos válidos, os brasileiros não reconduziram ao Planalto só o nordestino pobre que lhes assegurava o Bolsa Família por mais quatro anos, como sugerem observadores simplistas. O caráter social do governo pesou, sim, para provar a milhões de eleitores que é possível conciliar política de redistribuição de renda (aspecto essencial do Bolsa Família) com equilíbrio fiscal, saneando os cofres públicos e preparando terreno para levar o país a um novo patamar de desenvolvimento, associando crescimento econômico ao combate à exclusão e aos desníveis regionais.

A vitória de Lula foi conquista da fé do homem do povo – do Zé, da Maria, dos Silvas – em sua capacidade de enfrentar as adversidades que séculos de dominação cristalizaram de forma injusta, geográfica e socialmente desigual. Quando vemos que as regiões Norte e Nordeste foram (pelos percentuais de votação) as principais responsáveis pelo resultado do segundo turno, percebemos que parte imensa do Brasil profundo, calado e marginalizado, despertou para a realidade de que neste gesto confirmava seu repúdio à política de desprezo e submissão que os interesses do grande capital no Sul-Sudeste impuseram por décadas.

Mas é importante notar que não foi só o Norte-Nordeste que elegeu Lula. Gente de todo o país se mobilizou de forma inédita na história republicana, com apoio das forças progressistas e dos movimentos sociais. Manter essa mobilização é essencial para permitir ao presidente cumprir sua parte no trato federativo e assegurar que o processo não se detenha, perdido na luta de interesses conflitantes representados no sistema de poder.

Vale ressaltar ainda que se a opção pelos pobres fosse o único trunfo de Lula, a sanha de seus críticos e a ação dos grandes interesses corporativos teriam encontrado meios de desmoralizar-lhe discurso e resultados. Vozes e espaços não faltariam para divulgar versões que minariam o que é positivo num governo que foge à regra histórica. Porque miséria reduzida não é notícia, benefícios paulatinos não dão manchete e os milhões de brasileiros que melhoraram de vida são estatística e socialmente pouco representativos, merecendo no máximo notas de pé de página. Esquecemos que qualquer 1% de 180 milhões são muitas famílias encaminhadas à cidadania. Se não houvesse criado condições conjunturais para efetivamente deflagrar, a partir de agora, um processo sólido de desenvolvimento e crescimento sustentáveis e responsáveis, Lula não teria sido reeleito com tal margem de votos.

Mas, afinal, quem são esses eleitores que, fora das regiões e camadas sociais mais pobres, perceberam a construção de um cenário positivo e investiram seu voto na plataforma de Lula? São aqueles que agora cobram do governo medidas concretas de desoneração da produção e das exportações, com uma revisão profunda da política tributária, porque sabem que produção mais barata traz crescimento econômico e, conseqüentemente, aumento dos níveis de emprego e consumo. Os mesmos que clamam por uma reforma política que devolva à democracia o caráter mais amplo de sua definição: a legitimidade da representação, presentemente eivada de todos os vícios possíveis, como a ingerência do poder político e econômico. Os que anseiam por uma democracia na qual os partidos representem verdadeiramente opções distintas de modelos de condução ideológica e administrativa. E são, em suma, os que acreditam que outro mundo é possível, que outra sociedade é viável, sem marginalização das grandes massas, sem os atuais desníveis de desenvolvimento regional, sem a brutal concentração de renda, sem os pornográficos bolsões de miséria, desde que governo e sociedade possam estar associados em um projeto de desenvolvimento sustentado que privilegie a educação e a inclusão tecnológica de todos os brasileiros. Desenvolvimento para quê? Para aprofundar a democracia e melhorar a qualidade de vida de todos os cidadãos, inserindo-os definitivamente no século XXI.

Ora, isso não é fácil em uma sociedade que sempre privilegiou os interesses das elites, as quais sempre tiveram, no Catete e no Planalto, o espelho de seus interesses. Para realizar o projeto consagrado nas urnas, Lula precisará de apoio político e social. Deste, saberá cuidar, como soube quando mobilizou as grandes massas que com ele se identificaram quando a governabilidade esteve ameaçada. Já a tranqüilidade política, dependerá de arranjos no Congresso cujo ponto de partida é uma coalizão que, mesmo não dando ampla maioria, garanta condições de governança e de aprovação das reformas essenciais para o desenvolvimento. Que garanta reformas como a tributária, a política, que são as mais prementes. E um ambiente político que não tranque votações essenciais para a condução do país e as mudanças que urgem.

Essa coalizão passa pelos partidos da base, os quais devem constituir seu eixo estratégico – PT, PSB e PCdoB – mas a eles não pode ficar restrita: não é possível prescindir do PMDB. Tudo isso se traduz em participação administrativa. Mas essa, para ser republicana, precisa estar justificada num pacto de defesa de um projeto de governo. E esse projeto é a plataforma apresentada pelo presidente aos eleitores no segundo turno e por eles consagrada. Para que essa coalizão ampla possa realizar seus objetivos é indispensável que o presidente tenha ampla liberdade na composição do Ministério, e é isso que se cobra de todos os partidos: dar inteira liberdade ao presidente. Se este é um princípio do presidencialismo, mais se impõe nas atuais circunstâncias, pois sabemos que a vitória de Lula tem um caráter muito especial que transcende a força dos partidos que apoiaram sua reeleição.

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