O PSB organizou-se em 1947, como a costela socialista da Esquerda Democrática, reunião do que no País existia de resistência à ditadura do Estado Novo (1937-1945). Derrubado Vargas, perdia sentido a política de frente, e impunha-se o reordenamento democrático e a organização dos partidos. Apeada a ditadura militar de 1964, graças a uma concordata com os militares e as grandes forças econômicas -- fórmula que possibilitou a implosão do Colégio Eleitoral, a eleição de Tancredo Neves e a posse de Sarney (1984)--, o país se encaminhou para dupla tarefa, a saber, limpar-se do ‘entulho autoritário’ e construir nova ordem constitucional, desta feita democrática. Repetia-se 1946. Novamente, vencida a ditadura, o partido-frente (MDB-PMDB) cedia lugar à frente de partidos. É quando o PSB (cassado em 1965) é refundado por antigos (os remanescentes de 47) e novos socialistas.
Nesses dois momentos destaca-se a fidelidade socialista a dois valores neles presentes, orientando os cordéis da história: a luta contra as ditaduras e o compromisso com a constitucionalização democrática. Os socialistas que se reuniram na Esquerda Democrática, primeiro, e no PSB, depois, em 1947, vinham da longa luta de quase nove anos contra o Estado Novo; os socialistas que em 1985 se reuniram a Evandro Lins e Silva e Jáder de Carvalho (adversários do Estado Novo e fundadores da Esquerda Democrática) para re-fundar o PSB, vinham da longa resistência de 20 anos contra a ditadura militar de 1964. A partir daí separam-se os cursos históricos.
A social-democracia O PSB de João Mangabeira (1947-1965) contribuiu decisivamente para a democracia e para o socialismo em nosso País quando, em face da preeminência do modelo soviético, antecipou-se por décadas ao decreto da história, afirmando nossa tese de hoje: socialismo e democracia, esta, com toda a sua carga iluminista, mas democracia que subtende justiça social, e justiça social que se completa na liberdade de crença, de religião, de reunião, de associação, de partido. A síntese com suas próprias palavras: Democracia sem socialismo, democracia não é; socialismo sem democracia, socialismo não pode ser.
Esse PSB – talvez mesmo constrangido pelas circunstâncias históricas e, assim, independentemente do pendor de suas principais lideranças – era, porém, um partido social-democrata; mas, ao contrário de seus congêneres europeus, sem inserção social ou sindical. Então a hegemonia do sindicalismo era disputada pelos comunistas aos trabalhistas do varguismo e a correntes católicas de reação.
Por isso escrevo que o período 1947-1965 encerra a primeira fase do PSB, que estamos chamando de ‘social-democrata’.
A segunda fase ou período contemporâneo Se a social-democrata é sua primeira fase, a segunda, que vem até esta data e prosseguirá até quando não sei, começa em 1985, com a reorganização da sigla (ou primeira refundação) e eu a identifico como ‘período contemporâneo”, cuja principal característica é a busca de inserção no campo da esquerda brasileira e nele de sua afirmação como projeto socialista.
Essa história, que já consumiu 22 anos, tem duas lideranças: Jamil Haddad e Miguel Arraes.
A refundação Jamil é o grande re-fundador da sigla, cabendo-lhe a responsabilidade e o mérito de transformar uma idéia (a retomada da organização socialista finda a ditadura militar) em um Partido nacionalmente estruturado e respeitado por suas posições, seu desempenho parlamentar, sua coerência política. Jamil consegue, concomitantemente à refundação da sigla e à sua organização, já referidas, afastar o PSB daquela origem social-democrata e mais e mais afirmá-lo como partido socialista. Enfrentou inumeráveis adversários internos e externos e a todos venceu. O marco de sua vitória foi a construção da Frente Brasil-Popular que em 1989 apoiou a primeira candidatura de Lula à Presidência da República.
Partido de massas Partido exemplar da esquerda socialista, não era, porém, o PSB, um partido de massas, mas um ‘partido de quadros’, isto é, destinado simplesmente ao bom debate, a contribuir com governos oferecendo militantes habilitados, sem, porém, jamais cumprir o objetivo que justifica a existência de um partido político: a conquista do poder. Um bom coadjuvante, apenas isso.
Essa feição começa a mudar em 1990 com o ingresso, em nossos quadros, de Miguel Arraes, que traz para o Partido o sentimento de povo, o calor das multidões e a discussão, que seria uma permanência na sua vida, da díade nacional-popular, associando a defesa do projeto nacional à emergência das grandes massas. Opção pelos excluídos
No Congresso de Maceió, em 1993, no qual foi eleito presidente, Arraes leva o partido a mais uma inclinação à esquerda, a chamada opção pelos excluídos, pelos não-organizados, rompendo com a tradição nacional dos partidos trabalhistas e comunistas de privilegiar a ação corporativa, deixando as grandes massas à mercê do populismo, do clientelismo e do assédio de seitas religiosas reacionárias. Mas, em compensação, se aproveitando das estruturas classistas e sindicais.
A segunda-refundação Está ao alcance dos atuais dirigentes do PSB, unificado como jamais esteve, a possibilidade de responderem por transformações ainda mais profundas na vida partidária, as quais podem significar uma verdadeira re-fundação. Refiro-me ao encontro do partido de massas (opção ainda não consolidada) e porta-voz dos excluídos (presentemente enamorados de Lula), com as teses do desenvolvimento com distribuição de renda, que, suponho, deve ser nossa bandeira.
Este terceiro momento da história contemporânea do PSB, liderado por Eduardo Campos, compreende nosso papel como guardiões dos valores da esquerda socialista, bandeira ensarilhada por outros partidos. Instrumento da afirmação dessa política será nossa candidatura presidencial em 2010, para o que precisamos, em 2008, ter candidatos próprios no maior número possível de municípios, e preparar, para 2010, o maior número possível de candidaturas aos governos estaduais. Nada disso colide com a acertadíssima construção do Bloco de Esquerda, na qual presentemente investimos com todas as forças. Nessas condições, nossas candidaturas serão sempre pré-candidaturas a serem submetidas, preliminarmente, aos partidos companheiros que integram o Bloco de Esquerda. Este, cumpre um grande dever histórico: manter firme as teses e os valores que sempre embalaram os sonhos da esquerda brasileira. |